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Portugueses e os problemas de sono: como resolver?

Em Portugal, dorme-se cada vez menos. O problema não é de agora, mas pode ter-se agravado nos últimos dois anos, devido à emergência da pandemia de covid-19 em Portugal, e, agora, com o conflito vivido na Ucrânia, com os portugueses a manifestarem mais sintomas de ansiedade.

De acordo com um estudo conduzido pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, e revelado no início deste ano, um em cada cinco cidadãos portugueses sofreram sintomas de ansiedade e depressão durante a situação pandémica, situação que, de acordo com os vários especialistas da área, pode ter levado ao agravamento dos problemas de sono.

“A fase inicial da pandemia, sobretudo, marcada pelo confinamento, gerou casos de ansiedade e obrigou à imposição de novas rotinas que implicaram maus hábitos associados a perda de horários de sono, condicionando alteração da estrutura do mesmo, tal como a utilização de dispositivos eletrónicos em horários de sono”, indicou a pneumologista Bebiana Conde, em entrevista à revista VIVA!.

Para a responsável pela consulta multidisciplinar do sono na OPFC – Clínica Médica do Porto, o impacto da problemática do sono na sociedade civil e científica começou a fazer-se sentir, particularmente, desde o início do presente século. E, segundo adiantou, são vários os fatores que podem estar envolvidos.

Ansiedade, sedentarismo, ausência de horários, nomeadamente no sono, são fatores que, isolados e em conjunto, acabaram por condicionar a qualidade do sono da população. Aos “problemas associados ao stress”, por exemplo, que podem ser gerados por diversos fatores, nomeadamente a existência de “múltiplos trabalhos, que obrigam a uma deslocação dos horários laborais para o tempo de descanso”, junta-se ainda a questão da utilização de “dispositivos eletrónicos, durante várias horas seguidas e, em particular, durante a noite”.

São dois fatores, considerados importantíssimos, que podem condicionar “atrasos de fase do sono e/ou privação cronica do sono”. Contudo, por outro lado, estima-se, também, que a “obesidade associada ao sedentarismo e a hábitos alimentares desadequados, em particular em classes sociais mais baixas, condiciona o surgimento de doenças metabólicas e com alta prevalência (50-60%), como a Síndrome de Apneia/Hipopneia Obstrutiva do Sono (SAOS) ou a Síndrome de obesidade Hipoventilação”.

Atualmente, de acordo com Bebiana Conde, verifica-se um crescimento de casos de patologia do sono em várias faixas etárias da população, sendo, no entanto, o público infantojuvenil e adulto o mais afetado pelos “dispositivos e pela privação cronica do sono”.

No entanto, também o adulto em início de carreira com múltiplas atividades é “igualmente afetado pela perda da estrutura do sono e a privação crónica do mesmo”, com complicações sociais, laborais e pessoais graves que, frequentemente, estão na origem de conflitos interpessoais e doenças psicológicas, cuja resolução dependeria unicamente do restabelecimento do ritmo do sono, explicou.

Insónias, alterações da estrutura do sono e patologia obstrutiva do dono, nomeadamente SAOS, têm sido os problemas que mais têm afetado os portugueses na área do sono e que devem ser acompanhados com especial atenção, uma vez que podem originar graves problemas de saúde mental.

“A má qualidade do sono está associada a doenças psiquiátricas como a ansiedade e a depressão que, muitas vezes, são facilmente solucionadas com a melhoria do sono”, alertou a pneumologista acrescentando que dormir bem é, realmente, fundamental, tanto para a saúde física como mental dos cidadãos.

Por isso, o sono, ou a falta dele, devem constituir um sinal de preocupação sempre que, “por sistema, não seja reparador”. E para contornar esta problemática é essencial que os cidadãos tenham “consciência de que o sono deve ser preparado” e que não é benéfico “estarem obcecados por dormir bem”.

Mais do que tudo, a especialista considera que é importante existir um respeito pelo “período do sono”, o que é fundamental para um dia produtivo. Mas para que esse objetivo seja atingido é necessário que, ao final do dia, sejam tidas em atenção uma série de recomendações importantes, como o viver um “período de relaxamento, de transição, sem atividades lúdicas ou laborais que estimulem a atenção”. Adicionalmente, é essencial que haja também uma “redução progressiva de atividade após o jantar, que deve ser leve, sem bebidas alcoólicas e sem cafeína” e que o quarto tenha um “ambiente relaxante”.

“Tudo isto permitirá o correto cumprimento do ciclo do sono nas várias fases, permitindo, assim, alcançar um sono reparador. É fundamental estarmos conscientes que depende de cada um de nós a qualidade do sono, que devemos dormir e acordar preferencialmente à mesma hora, sendo que devemos dormir no mínimo entre seis a oito horas. No entanto, depende de cada pessoa avaliar as horas necessárias para um sono reparador”, completou a responsável pela consulta multidisciplinar do sono.

Durante a conversa, Bebiana Conde realçou também que os portugueses devem evitar adormecer no sofá e ter televisão no quarto, uma vez que são fatores que alteram a estrutura do sono e, consequentemente, acabam por o condicionar.

Fonte: Viva Porto