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O Síndrome do Impostor: quando se acha que o salto é maior do que a perna

Pedro*, 27 anos, o primeiro licenciado da sua família consegue emprego como consultor numa das melhores empresas do mercado. Todos os amigos o congratulam pela conquista e pelo quão merecido era o lugar que ele conseguiu.  

Afinal de contas o Pedro vem de uma família com poucos recursos financeiros, mas que com grande esforço e carinho sempre o foi conseguindo apoiar para que ele pudesse ter um futuro mais risonho. 

A oportunidade apareceu e o Pedro agarrou-a. Os primeiros dias foram como uma espécie de lua de mel, onde ainda meio anestesiado pelo feito e por todo o significado que isso tinha para ele, os dias fluíam com grande serenidade, tanto que nem tinha vontade de ir para casa, aguardando ansiosamente que as 9 da manhã chegassem novamente para voltar ao escritório.  

No entanto, gradualmente a poeira foi assentando e o contacto com os colegas e a cultura da empresa sendo mais próxima, passando de um conhecimento superficial para algo mais profundo. 

Começou a reparar que era o único colaborador que não tinha ninguém na família que tivesse seguido as pisadas. Todos os outros colegas tinham pelo menos um familiar que já fez parte da empresa ou trabalharam muitos anos no ramo.  

O Pedro começa a preocupar-se com essa perceção e com isso a sentir-se afastado daquela cultura, daquelas pessoas, daquele emprego. Antes de tudo sente que não pertence ali, apesar de querer muito pertencer.  

Na procura incessante de tentar lidar como o desconforto que sente, começa a procurar por si maneiras de lidar com essa preocupação. Descobre que procurar aperfeiçoar-se na sua função, pesquisando informação, tirando cursos, lendo livros sobre o assunto o ajuda a diminuir a inquietação e preocupação que o invadem.  

Sente que se sentindo mais capacitado se sente também mais próximo da empresa e do lugar que ocupa, mas que acredita que não merece. Nada de mal nesta procura. Afinal de contas este aprimorar de capacidades pode ser positivo, à exceção, obviamente, das 8 horas que o Pedro gasta por dia nesta tarefa, depois de 8 horas a trabalhar.  

Torna-se com isto perfeccionista, extremamente perfeccionista em tudo o que implique trabalho, esperando que as dúvidas que tem sobre si mesmo nunca possam ser levantadas pelos colegas e as chefias se o trabalho que lhe cabe fazer for entregue sem limitações. Nada pode falhar. Tudo tem de ser perfeito.  

No entanto, este percecionismo, digamos, tóxico, acaba por ter um efeito oposto: nada parece estar 100% perfeito. E à medida que vai aperfeiçoando, mais coisas para aperfeiçoar aparecem, que, não pode aperfeiçoar em determinadas horas ou momentos do dia porque não tem tempo suficiente para que aquilo que vai fazer fique mesmo perfeito. 

Com isto, o trabalho com que sempre sonhou torna-se afinal o seu maior pesadelo, sentindo-se constantemente ansioso e deprimido. A sua vontade é desistir, não por causa do seu trabalho, mas pelo medo que descubram que não é o especialista que pensam que ele é, pelo medo de ser julgado em praça pública e passe uma vergonha à frente de todos. Como tal, desistir parece ser uma boa opção, nem que seja para poder sentir algum alívio de toda a pressão que agora sente. 

De facto, o que o Pedro tem é o que conhecemos como síndrome do impostor, ou melhor, o fenómeno do impostor, que será o termo mais correto a utilizar uma vez que ainda não dispõe de classificação no DSM.  

Podemos dizer que uma grande parte de nós já experimentou sensações deste género pelo menos uma vez na vida, provavelmente em momentos de transição, seja num emprego, seja numa nova relação ou qualquer outra situação de vida que possa ter um impacto significativo no nosso percurso.  

A sensação de que “o salto é maior do que a perna” é comum surgir nesses momentos, sendo que, por exemplo, a perceção de que não se sabe nada do que se aprendeu na faculdade quando transita para o primeiro emprego e que por isso somos uma “fraude” é uma perspetiva que quem passou por essa etapa talvez se recorde de o sentir em si mesmo ou nos colegas na altura. 

Apesar de ainda não ter enquadramento nos manuais de diagnóstico, este fenómeno já conta com várias décadas de estudo, tendo sido referenciado pela primeira vez ainda na década de 70 do século passado pelas Psicólogas Suzanne Innes e Pauline Rose Clance. 

Quem sofre com o fenómeno do impostor costuma desenvolver tendências para alguns comportamentos que podem provocar mal-estar significativo no dia-dia e com consequências que também podem ser nocivas a longo prazo, como o caso do Burnout, Ansiedade ou Depressão. 

Face à sensação de estar sempre em desvantagem, ou de ser uma fraude que será desmascarada a qualquer momento por alguém mais competente e com isso não se sentindo merecedor do lugar que ocupa, o indivíduo pode começar a desenvolver comportamentos por um lado de evitamento, onde procrastina adiando cada vez mais as tarefas, principalmente aquelas onde possa ser alvo de avaliações negativas por parte dos outros.  

Com isso tenderá também a ter mais receio de tudo o que sejam reuniões ou situações semelhantes onde a sua fragilidade possa ser exposta. Podem também surgir comportamentos de autossabotagem, onde o indivíduo vai desistindo de atividades e tarefas que para ele serão inúteis uma vez que se perceciona como estando tão longe da competência dos outros que será um esforço infrutífero.  

Por outro lado, pode dedicar-se a uma procura desenfreada pelo perfeccionismo, tarefa que gerará frustração, criando desgaste e com isso entrando num ciclo negativo podendo com isso limitar gradualmente a sua capacidade cognitiva, por exemplo no que toca aos níveis de atenção e concentração, o que o obrigará provavelmente a um esforço cada vez maior para manter o desempenho anterior. 

Uma vivência destas, onde a pessoa não consiga enquadrar os seus esforços numa espiral de crescimento contínuo e sustentado, pode levar ao desenvolvimento de perturbações de ansiedade ou depressão, uma vez que esta perceção negativa sobre si e sobre o mundo faz com que a pessoa desvalorize constantemente os seus feitos e as suas conquistas, focando a sua perceção apenas naquilo que fez mal e às críticas que por mais pequenas que sejam, foram dirigidas a si e ao seu desempenho.  

Assim, uma situação destas, onde o mal-estar significativo ocupa os dias do indivíduo, prejudicando o seu normal desenvolvimento pessoal e o bem-estar psicológico, pode ser necessário que procure ajuda na terapia psicológica.

Um apoio importante para que consiga reenquadrar estes pensamentos, encarando-os numa perspetiva de crescimento inerente ao processo de transição que pode estar a decorrer, desmascarando as tendências perfeccionistas, ajudando a uma focalização mais realista sobre os seus pontos positivos e negativos, tentando também limitar o coping desadaptativo que durante o desenvolvimento deste fenómeno o sujeito foi usando como manobra de compensação.  

Momentos de insegurança invadem certas fases da nossa vida. Essa insegurança muitas vezes faz parte de fases de transição, onde o sujeito não está habituado a uma nova realidade e como tal lhe gera medo. Lidar com a incerteza de uma maneira saudável onde o crescimento possa ser adequado, sustentado e consolidado torna-se um fator importante para lidar com esses momentos e com estes fenómenos. 

*caso fictício

O Síndrome do Impostor: quando se acha que o salto é maior do que a perna. (linkedin.com)

Dr João Fernando Martins
coordenador do Centro de Bem-Estar Psicológico e Saúde Mental.