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Dra. Bebiana Conde fala com o JPN sobre a Nova Consulta Multidisciplinar do Sono

A pneumologista Bebiana Conde, uma das poucas especialistas portuguesas certificadas pela European Sleep Research Society, falou com o JPN sobre estes métodos, uma novidade da OPFC – Clínica Médica do Porto na área do estudo do sono.

Consulta Multidisciplinar do Sono é o mais recente investimento da OPFC – Clínica Médica do Porto na área do estudo do sono. A inauguração aconteceu a 11 de fevereiro e as portas já estão abertas no n.º 4183 da Avenida da Boavista. No novo espaço, é possível efetuar um estudo aprofundado do sono do doente, através da monitorização e avaliação noturna.

Estudos indicam que um em cada quatro portugueses sofrem de problemas de sono, numa realidade com um crescente número de casos de ansiedade e outros problemas que interferem com o sono. Bebiana Conde, pneumologista, considera que os portugueses não têm bons hábitos de sono, mas que o problema é global. “De facto, nós temos dados que apontam para um problema que não é só português” defende.

“Não só nós temos um incremento do consumo de fármacos para a indução do sono e mesmo de benzepinas, que não tem o benefício que as pessoas pensam que tem”, refere a especialista nesta área do sono. Isto acontece, também, “por sermos um país com um crescente número de obesos também temos patologia associada à obesidade, nomeadamente síndrome apneia obstrutiva do sono”, começa por explicar, nomeando alguns problemas relacionados com o sono como insónias, parassónias, privação do sono, alterações da fase do sono.

Bebiana Conde aponta a obesidade como uma das principais causas dos problemas de sono dos portugueses e explica de que modo estão relacionados. “O incremento da gordura particularmente a nível da caixa torácica, abdominal e a nível do pescoço compromete a via aérea. É uma questão física. Para além da introdução de fibras de gordura no meio da fibra muscular, diminui a tonicidade e por isso durante o sono há uma hipotonia agravada com colapso da via aérea”, explica a especialista sobre o problema de saúde publica, que assume como causa de mais listas de espera em termos de consultas de pneumologia e patologia do sono.

Por outro lado, a médica explica que doenças do foro psiquiátrico – como a anorexia, distúrbios alimentares, ansiedade e depressão – também comprometem a qualidade do sono.

Relativamente ao uso de medicamentos, a especialista afirma “a insónia não se trata com fármacos”. Não recomendando essas soluções para alcançar um sono de qualidade, Bebiana Conde explica: “nós não dormimos desligando um interruptor turn on/turn off. Isso não existe. Por isso, o que é importante é termos bons hábitos de sono”.

“O principal tratamento da insónia é a terapêutica cognitivo-comportamental”, refere, tendo em conta as implicações de um sono não reparador noutras doenças e a importância de apresentar à sociedade uma proposta como a Consulta Multidisciplinar do Sono.

Portugueses têm “maus hábitos de sono”

Cerca de 40% dos portugueses já sentiram sonolência ao fazer tarefas do dia-a-dia. A médica, distinguida pela European Sleep Research Society pelo trabalho nesta área, destaca vários motivos, separando-os em duas categorias: os que estão relacionados com os hábitos de sonos e os que estão ligados a apneias do sono.

“Tudo o que é patologia obstrutiva do sono associada à obesidade, pessoas com mais de 45 anos, pessoas que bebem bebidas alcoólicas à noite, fazem refeições copiosas à noite, pessoas maioritariamente do sexo masculino que têm uma prevalência maior e, acima de tudo, obesos são patologias de sono não diagnosticadas ou maltratadas. Depois, temos uma quantidade muito baixa de hipersónias idiopáticas, hipersónias associadas à narcolepsia e a hipersónia associada à privação crónica do sono”, enumera.

Foto: Bruno Azevedo

A especialista critica alguns maus hábitos de sono da população que contribuem para o cansaço durante o dia e na execução de atividades do quotidiano. “As pessoas vão para a cama tarde, acordam cedo e depois acham que ao fim de semana compensam. Isso só é possível na idade jovem. Na idade adulta, isso já não é possível. E se nós não dormirmos o tempo suficiente, obviamente que durante o dia vamos sentir cansaço”, diz. Recomenda, por isso, “tentarmos ser o mais rigorosos possível e tentar não fazer mais do que aquilo que é razoável fazer”.

Quando acordamos cansados, o que poderá significar? Segundo a médica, indica “que tivemos um sono não reparador” e aconselha a refletir se é algo recorrente ou não. “Se naquele dia, por algum motivo, nos deitamos tarde, mas no dia seguinte temos de acordar à mesma hora, só temos de ter o cuidado de não repetir isso muitas vezes e no dia seguinte vamos estar recuperados. Se isto for regular e estivermos associados a outro tipo de doenças, como diabetes ou hipertensão, isso leva-nos a pensar que podemos ter uma síndrome da apneia obstrutiva do sono e devemos procurar ajuda”.

Quanto tempo devemos dormir?
O sono tem várias fases (sono leve, profundo, sono REM). A especialista afirma que não é normal não atingir momentos de sono mais profundos, o que condiciona o sono reparador. “O ciclo normal é o ciclo superficial que se vai tornando cada vez mais profundo até ao nível 3 e depois há um evento de REM”, explica. O sono REM é a fase do sono na qual ocorrem os sonhos mais vívidos. Nesta fase, os olhos movem-se rapidamente, o que origina o nome Rapid Eye Movement (Movimento Rápido dos Olhos). A especialista afirma que “devemos ter à volta de quatro ou cinco ciclos por noite. Quando temos insónias colocadas no meio ou despertares ao longo da noite, ou não temos REM ou sono profundo, naturalmente não temos um sono reparador”.

Patologias associada à síndrome da apneia obstrutiva do sono são das perturbações do sono que mais chegam ao atendimento da especialista. “Eventos centrais, poucos frequentes, também existem, ou seja, pessoas que têm doença neurológica ou cardíaca e que durante o sono o drive não responde e por isso faz apneias centrais. E depois insónias ou alterações da estrutura do sono”. Estas alterações podem ser avanços de fase (adormecer mais cedo e acordar a meio da noite) ou atraso de fase (deitar-se progressivamente mais tarde apesar de ter de acordar à mesma hora).

Sobre os casos mais graves ou peculiares que lhe chegaram às mãos, Dra. Bebiana Conde responde que “infelizmente são muito frequentes e às vezes o peculiar passa a ser a norma”. Considera como situações mais desafiantes as parassónias, ou seja, alterações do comportamento ou movimentação que há durante o sono.

É nestes casos que o tratamento pode ter maior impacto. Os doentes “ficam verdadeiramente felizes quando tinham uma vida com muito cansaço, com irritabilidade, com incapacidade de fazer as suas tarefas adequadamente e até conflitos familiares e pessoais – e depois de identificarmos a síndrome da apneia obstrutiva do sono, aderem ao tratamento e ficam a ter um sono reparador e confortáveis durante o dia. É muito gratificante”.

Foto: Bruno Azevedo

Um ajuda conjunta de várias especialidades pelo sono

A Consulta Multidisciplinar do Sono integra um conjunto de especialidades para uma abordagem do sono, que resulta numa ajuda conjunta para o doente. “Nós não podemos compartimentar o sono. A grande vantagem é que nós temos várias pessoas de áreas muito diferentes e que abordam a patologia do sono de forma muito diferente”, explica Bebiana Conde.

Enumera “a cardiologia que identifica imensos doentes particularmente quando estão na patologia cardíaca, a psiquiatria, que tem muitas vezes doentes com apneia do sono não tratada e que lhes compromete o comportamento”, a neurologia, a pneumologiaendocrinologiaotorrinolaringologiapsicologia e nutrição.

As recomendações da especialista para cuidar do sono
Organização Mundial de Sáude (OMS) recomenda, para uma boa higiene de sono, evitar ler, ver televisão ou alimentar-se na cama; fazer refeições ligeiras à noite e não se alimentar próximo da hora de dormir; evitar sestas em caso de dificuldade em adormecer; não levar as preocupações diárias para a cama. Dra. Bebiana Conde acrescenta que, “acima de tudo, temos de ter a noção de que o nosso organismo é como se fosse um relógio e, por isso, temos que o respeitar. Temos que ter horários para tudo. A cama não é sítio para comer. A cama não é para pensarmos nos nossos problemas. A cama é efetivamente para dormir”.

Para a especialista, é fundamental “criar um ritual, criar um ambiente relaxante à noite” e respeitar o horário de dormir, com meia hora de tolerância no máximo. “Tem que se ter o cuidado de não tomar mais de dois ou três cafés por dia, não fazer refeições exuberantes à noite, não beber bebidas alcoólicas à noite. À noite é relaxar e a transição para a hora de dormir deve ser uma coisa natural. E fazermos isto todos os dias à mesma hora”, aconselha.

Esta nova consulta inova pela conjugação e sincronização simultâneas das diversas especialidades da medicina, que acreditam estar relacionadas com o sono.  A consulta está aberta para qualquer tipo de queixas relacionadas com o sono.

A especialista relembra, porém, a importância do empenho do próprio doente no processo. “Não podemos ter a ingenuidade de achar que resolvemos se o doente não quiser. É fundamenta que o doente esteja envolvido. Se o doente não tiver consciência do que tem que modificar e contribuir para essa mudança, particularmente nos estilos de vida, não vamos ter grande hipótese de sucesso”, defende.

As mais recentes tecnologias de diagnóstico

Recorrendo às mais recentes tecnologias de diagnóstico, a Consulta Multidisciplinar do Sono pode efetuar em simultâneo polissonografias – medição da atividade respiratória, muscular e cerebral durante o sono -, eletrooculogramas – avaliação da diferença do impulso elétrico de repouso entre a córnea a região da retina -, eletroencefalogramas – avaliação da atividade elétrica do cérebro -, electromiogramas – avaliação da atividade elétrica muscular – e eletrocardiogramas – avaliação do ritmo dos batimentos cardíacos em repouso.

Os equipamentos disponíveis incluem estudos do sono nível 1, 2 e 3. O nível 1 é aquele que tem vídeo, monitorização eletroencefalográfica com mais de seis canais, eletromiografia, movimentos dos olhos, parte cardíaca e respiratória. O nível 2 é ambulatório, mas também com alguma monotorização eletroencefalográfica. O nível 3 só tem monotorização cardíaca e respiratória. Estão também presentes serviços de epigrafia e otorrino, complementares na avaliação.

Alguém que queira uma Consulta Multidisciplinar do Sono será abordado por Bebiana Conde e, em função das queixas, será orientado. Pelo menos uma vez por mês, terão uma reunião para apresentar os casos mais importantes ou sempre que o doente pretenda. A consulta é recomendada a todos os doentes que tenham patologia do sono, com queixas por ressonar, apneias descritas, por ter um sono não reparador, por movimentos repetitivos durante o sono, por insónias não pontuais que não conseguem resolver e “todos aqueles que não estão bem e o sono é o seu responsável” por esse mal-estar, conclui.

Fonte: JPN-JornalismoPortoNet