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Como explicar a guerra às crianças?

A guerra entre a Rússia e Ucrânia está na ordem dia. Como podemos abordar o tema junto das crianças? O psicólogo João Fernando Martins explica tudo.

conflito entre a Rússia e a Ucrânia é, inevitavelmente, o assunto do momento. Os canais informativos transmitem informação 24 horas por dia, os jornais e revistas fazem capa com a guerra e as redes sociais são inundadas de notícias e pedidos de auxílio.

É difícil, ou quase impossível, que este tema passe ao lado dos nossos filhos. Surge uma certa curiosidade, começam as conversas entre os colegas e, consequentemente, as perguntas complicadas aos pais. Qual a melhor forma de lidar com esta situação?

Ignorar não é solução

João Fernando Martins, psicólogo clínico, defende que temas tão negativos e pesados, como as guerras, não devem ser ignorados, uma vez que “pode dar uma perceção de que o desconforto que a criança sente é vivenciado apenas por ela e não partilhado pelos adultos”. Ninguém sabe, ao certo, qual o nível de exposição da criança face a este assunto, pelo que não é fácil ter noção do tipo de inquietações que possuem.

Deste modo, “ignorar não é, de todo, uma solução”. Porém, o tema não deve ser forçado “quando a criança não demonstra essa necessidade”. Acima de tudo, deve haver abertura e disponibilidade dos pais para conversar sobre o assunto com a criança, nos moldes que ela entender e precisar.

Como abordar o tema?

Não há uma forma específica de abordar ou preparar uma conversa sobre este tema. Para o psicólogo, o mais importante passa por “tentar compreender que tipo de necessidade tem a criança ou o jovem em falar sobre o conflito e, com isso, ir adequando a comunicação e as respostas ao nível de profundidade que esse dúvida exige”.

Aliás, preparar esta conversa pode até ser contraproducente, já que os temas que foram pensados pelos pais ou cuidadores podem não corresponder às reais dúvidas das crianças.

Tente perceber, em primeiro lugar, as dúvidas e as necessidades do seu filho em relação ao tema da guerra. Depois, adeque a comunicação consoante a curiosidade e as exigências da criança.

“Torna-se importante, também, promover uma sensação de sinceridade entre todos. Podem existir questões que os adultos não sabem responder, o que é normal. E nessa vertente, não será, de todo, recomendável que se minta à criança, mas antes que se promova uma sensação de proatividade e partilha ao, por um lado, afirmar que o adulto não sabe a resposta a isso, e por outro, que juntamente com a criança, vão pensar numa solução”, acrescenta.

A partir de que idade devem os pais falar sobre a guerra?

De uma forma geral, as crianças mais pequenas devem ser protegidas, sendo de evitar a exposição a notícias e conversas sobre a guerra. Por outro lado, as mais velhas podem ter necessidade de conversar e esclarecer alguns anseios.

João Fernando Martins acredita que estas conversas podem acontecer em qualquer idade. É crucial adaptar a linguagem e os temas “ao grau de compreensão da criança e à sua capacidade de perceber conceitos mais ou menos complexos”.

Que papel devem assumir os pais nestas situações?

Transmitir tranquilidade e segurança. Os pais devem focar-se na “tranquilização e na transmissão sensações que reforcem a ideia de que os filhos, os amigos e familiares próximos, estão seguros”.

Por vezes, esta sensação de proximidade que as notícias nos trazem pode levar as crianças e os jovens a acreditar que “a guerra está muito próxima e que as pessoas de quem gostam estão em perigo. É importante, nesta fase do conflito, reconhecer o que se está a passar, mas, ao mesmo tempo, reforçar que, de momento, estão todos seguros“.

“Falar sobre estes assuntos pode contribuir para um ambiente familiar mais forte e presente”

A partilha de conhecimento, o esclarecimento de dúvidas e o tranquilizar de medos e anseios em relação ao tema da guerra, pode levar a um reforço dos laços de confiança e da relação entre pais e filhos.

“Ao perceber que o sofrimento, a incerteza e a confusão que estes temas lhe trazem não são exclusivos da criança e que, pelo contrário, são transversais aos pais e cuidadores, pode levar a um reforço do ambiente de partilha entre todos, onde a criança se sente acolhida nos seus anseios e compreende que aquilo que sente não é exclusivo de si e pode ser abraçado por quem lhe é próximo”, explica o psicólogo.

Aproveite esta oportunidade para sensibilizar e educar para a não violência. Converse com os seus filhos sobre a importância de resolver os conflitos de forma pacífica, incentivando ao diálogo, a pedir desculpas, a respeitar os colegas e a transmitir emoções.

Fonte: Mãe Me Quer